terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A cidade sem wi-fi



Os hábitos são coisas esquisitas. Levam-nos a fazer coisas que não queremos mais fazer, em momentos que não dão jeito nenhum. Demoram a retirar-se ordeiramente das nossas vidas. 

Prova disso é o facto de eu ser muito mais feliz quando começo os dias sem internet, sem telefone, sem comunicação com o mundo em geral, no entanto dificilmente consigo levar este prazer a cabo. Quando dou por mim já tenho o pequeno-almoço numa mão e o rato na outra. O do computador.

Nos Estados Unidos da América, a oeste de Virgínia, existe uma cidade sem acesso à internet ou telemóveis. (Há telefones fixos, para o caso de uma nuvenzinha de preocupação se ter instalado nessa cabecinha). Tudo por causa de um telescópio de alta-tecnologia que pertence ao governo. Um rádiotelescópio, que serve para ouvir o espaço, em vez de o ver. Preciamos saber que música estão os extra-terrestres a ouvir. Para disfarçar, dizem os cientistas que querem estudar regiões do espaço em que a luz não chega. Mas eu não caio nessa desde que li Contacto, de Carl Sagan.

Pronto, de qualquer forma, é oficial que ali eu seria feliz. Todas as manhãs. 
À tarde logo se via. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Inês


Se eu morresse esta noite, sem possibilidade de comunicar com ninguém, não teria arrependimentos pelo que não disse. Percebo que, de uma maneira ou outra, sempre fui clara sobre os meus sentimentos e intenções relativamente a todos na minha vida. Pelo menos essa é a minha convicção interna, e se alguém não sentiu da mesma forma, mas não mo disse, o que poderia eu fazer para corrigir a situação?

No entanto, há alguém a quem não disse tudo o que queria. Só percebi que tinha toneladas de coisas para lhe dizer meses depois de já não o poder fazer. E isso ainda me consome.

Pese embora o tanto que amava a minha avó, não tive perspicácia para perceber que nunca mais conheceria alguém semelhante na minha vida e que, também por isso, deveria aproveitar cada instante ao máximo. E daí o tanto que ficou por dizer. Por perguntar. 

Para dizer a verdade, toda aquela perfeição não me parecia tão perfeita assim, na altura. Chegava até a... magoar-me. Queria que se tivesse revoltado, que tivesse esbravejado, que se tivesse protegido muito mais do que fez. Ela levava a sério aquela "história" bíblica de dar a outra face. E essa capacidade inacreditável de ter (realmente) dó da estupidez alheia, em vez de se revoltar contra ela (especialmente quando essa estupidez a afectava directamente de formas inimagináveis), sempre gerou todo o tipo de sentimentos de revolta em mim. Claramente bastante menos evoluída do que ela, eu só tinha vontade de abrir a cabeça ao meio àquele que lhe fazia a vida num inferno. Como não podia, dediquei-lhe apenas a mais profunda indiferença, pese embora as inúmeras tentativas de aproximação que ele sempre levou a cabo. Fomos, por minha vontade, estranhos que conviviam diariamente.

Em vez de me revoltar com as acções dele e com a falta de reacção dela, deveria, como agora, ter ficado fascinada com a sua capacidade de perdoar. E como é possível perdoar a quem magoa tanto aqueles que amamos?

Não ter aprendido mais com a presença da minha avó é, por certo, o meu maior arrependimento. Nunca mais cometi esse erro com pessoas especiais. Nem pretendo.

Se eu pudesse



Se eu pudesse acordar amanhã tendo ganho uma qualidade ou capacidade que não tinha hoje, gostaria que fosse a capacidade de ler extremamente rápido. 

Esta é uma capacidade que se desenvolve, e eu noto que não tenho sido excepção a esta regra, mas há um limite que, parece-me, já atingi. Como a minha curiosidade não tem limites e há sempre alguma coisa que desperta o meu interesse e sobre a qual preciso saber mais urgentemente, estou sempre a tentar ler mais e mais depressa. Ter ali, nas minhas estantes, no conforto do meu lar, os melhores mentores sobre determinado tema, e não poder "ouvi-los" é um desperdício que me custa aceitar.

E por falar em ouvir, os audiobooks também se têm tornado meus grandes amigos nesta saga. Mas também já atingi o meu limite de percepção auditiva resultante do aumento da velocidade de reprodução das faixas. Além disso, com os audiobooks sinto que estou a fazer um compromisso entre o que quero (isto é, aprender no menor espaço temporal possível) e o que gosto (neste caso, gostaria de apreciar a voz e o trabalho de variação vocal, enquanto aprendo). E este compromisso não me deixa apreciar inteiramente a mensagem.

Então, venha daí o génio da lâmpada que lê este meu desejo. Vá lá, não sejas tímido.