quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Conflitos internos


Ser famoso deve ser muito chato. Ter constantemente conhecidos e desconhecidos a respirarem-nos para cima do pescoço. Intrometidos, curiosos, fofoqueiros, interesseiros e fanáticos em constante ronda. Não poder ter vida pessoal. Ter dificuldade em ir ao cinema ou jantar num lugar público, sem ter uma dúzia de flashes a estragar a luz ambiente.

Viver desta forma, depois de dar à sociedade o suficiente para justificar a fama, parece-me um castigo injusto. Felizmente, na minha área profissional é muito difícil despertar tal nível de interesse alheio. Digo felizmente porque a minha vontade de contribuir é muita, mas a minha capacidade de abdicar de viver de uma forma que considero mais íntima, bonita e saudável é muito pequena. E um conflito entre o que quero e o que estou disposta a abdicar para o atingir, não poderia contribuir para nada além de uma dificuldade imensa em realizar-me.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Vamos jantar?



Se pudesse escolher qualquer pessoa da actualidade para partilhar um jantar comigo, teria alguma dificuldade em escolher alguém. Tenho curiosidade relativamente a tantos assuntos, que pensar em apenas uma opção seria quase doloroso: sofreria mais por aqueles que não escolhi, do que aproveitaria a alegria oferecida pela presença do escolhido. Tolo, eu sei. Tenho de trabalhar esse aspecto de personalidade.

Gostava de ter oportunidade de conversar com o Papa sobre religião. Nunca fui religiosa, apesar de ter sido baptizada e ter feito a primeira comunhão. Precisamente pelo que me foi ensinado nas aulas de catequese, sempre tive uma curiosidade enorme em entender o porquê de alguém acreditar em Deus. Apesar de várias tentativas, nunca ninguém parecia interessado em responder-me verdadeiramente. "Porque sim" e variantes desta resposta levaram-me a compreender que muitas pessoas sentem-se ofendidas quando se questiona a sua fé. Nunca conheci ninguém que conseguisse falar sobre isto sem se sentir atacado pelas minhas perguntas (simplesmente curiosas, sem julgamento), o que sempre interpretei como uma coisa absolutamente estranha. Eu adoro falar daquilo que me apaixona. 

Acredito que o Papa Jorge Bergoglio (mais conhecido por Papa Francisco) é o tipo de pessoa que adora este tipo de conversa. A potencialidade de compreender a convicção de um religoso sem medo de perguntas, fascina-me.

Mas também gostava muito de conhecer o escritor e palestrante Anthony Robbins, que sem curso superior algum, demonstrou que somos tão fortes em determinado tópico quanto nos interessarmos por estudá-lo sem pré-concepções, de mente aberta. Especialista em evocar superação de fobias em minutos e em modelar comportamentos de sucesso conquistou reputação e respeito, até de entidades médicas que inicialmente o atacavam sem dó nem piedade. Por este trabalho de sucesso, nas últimas décadas trabalhou com inúmeras personalidades do mundo político, militar e desportivo, pelo que seria uma fonte inesgotável de conhecimento e entretenimento ao jantar. 

Claro que haveria sempre a possibilidade de me desiludir enormemente com alguém, apesar da admiração que agora lhes guardo. Que o diga Deepak Chopra, médico endocrinologista, cuja personalidade espiritual e livros de não-ficção sempre me cativaram, até ao momento em que lhe descobri o canal youtube. A forma como interrompe convidados que educadamente discordam da sua perspectiva, e a convicção com se pronuncia em jeito de iluminado espiritual acima de contestação, quebraram completamente a admiração que lhe tinha. Hoje, os seus livros estão encostados numa prateleira, porque o meu interesse e vontade de os estudar morreu.

Pensando melhor, convidar o Jamie Oliver também seria uma boa ideia. Descontraído, divertido. Chef. Com um bocadinho de jeito, enfiava-o na cozinha e preparava-nos o jantar.






terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Mente ou corpo?



Ultimamente uma questão tem consumido os meus pensamentos: se pudesse viver até aos 90 anos conservando apenas a mente ou o corpo que tinha aos 30 anos, qual escolheria?

A mente é o meu maior tesouro. É a partir dela que recordo os momentos felizes do passado, planeio o presente e, de alguma forma, construo o meu futuro. É ela que me permite integrar emoções. E, afinal, não são as emoções que nos movem, que dão sentido à vida?

Mas uma mente sã num corpo limitado, deve ser uma tortura imensa. Não poder concretizar o que a mente solicita e viver a intensidade das sensações físicas, deve ser difícil, muito difícil. Talvez a conservação do corpo me permitisse viver o tão desejado presente. Poderia concretizar actividades que me fizessem feliz, continuamente, ainda que para isso tivesse de abdicar das memórias do passado. Mas talvez isso fosse mais difícil para os outros, os que me rodeiam, do que para mim, na verdade. Porque eu estaria completamente alheia dessa realidade. 

Achei ter encontrado a resposta a esta questão, enquanto escrevia. Mas acho que não. Talvez fosse eu a maior perdedora, porque perderia (dentro da minha própria mente) as pessoas que dão um sentido imenso à minha existência. 

É um sentimento de alívio imenso não ter de responder a esta questão. Não ter de escolher. Nesta realidade em que vivo, cabe-me apenas estimular corpo e mente, para conservar ambos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho


A vida deu-me inúmeros motivos para ser grata. Mas o meu maior motivo de gratidão são os meus pais. Dizem algumas crenças religiosas que escolhemos os pais que vamos ter e o ambiente que nos vai envolver. Pelo visto, eu escolhi um cenário daqueles bem fáceis. A vida de casal dos meus pais não teve um começo facilitado, mas Amor nunca faltou e com empenho cresceram muito profissionalmente, de tal forma que eu tenho recordações muito vagas de uma vida diferente da de hoje. 

Os meus pais são as pessoas mais equilibradas que conheço. São admiráveis. Apesar das contrariedades, transformaram a minha infância num conjunto de dia felizes. Tão felizes que eu tenho dificuldade em crer que alguém tenha crescido de forma mais feliz do que eu (costumo vaidosamente pensar que possam ter sido tão felizes quanto eu, mas não mais). No entanto, se eu pudesse, mudaria uma coisa na forma como me criaram. Mudaria a protecção excessiva, que me tornou menos preparada para lidar com problemas. Quando os primeiros desafios se atravessaram no meu caminho, eu chorava, revoltava-me e sentia-me impotente. Só depois dessa reacção inicial (que podia durar dias), os genes deles, fazendo-se valer em mim, se 'ligavam' como interruptores automáticos, e eu percebia que podia (devia) lutar. E lutava com uma força que nem sabia de onde vinha, nem porque não se esgotava. Lutava sem considerar desistir, até vencer. E vencia, consistentemente.

À medida que os anos passaram os desafios tornaram-se maiores (acho que os desafios nos parecem sempre tão maiores quanto mais próximos se encontram). Mas eu chorei cada vez menos, face ao impacto do desafio, e lutei cada vez mais cedo para vencer a revolta. E continuei a ganhar. 

Até que esta situação aconteceu. Uma situação injusta, que não se resolvia independente do quanto fiz por merecer que se resolvesse. Uma situação que colocou o meu futuro profissional em perigo eminente, pelo capricho de um poderoso alguém. Um capricho, estúpido como todos os caprichos são, que não cedia. Trabalhei com empenho e fui reconhecida por profissionais independentes de um júri internacional. Mas o capricho daquele alguém não deixava que eu colhesse em solo nacional o reconhecimento que precisava para poder obter o grau académico pelo qual trabalhei.

Entre a escrita de emails com o dedo do meio e o desejo de partir todos os dentes a essa pessoa, considerei desistir. Não me lembro da última vez que desisti de um sonho. Acho que nunca aconteceu. E sei quanto me doeu considerar essa possibilidade, e começar de novo, noutro lugar. Mas continuei a lutar, apesar de tudo. Não sei bem porquê, já que todos os meus esforços se perdiam naquela artilharia pesada de oposição que não dava sinais de ceder. Talvez tenham sido os genes, aqueles genes dos meus pais, que os fizeram lutadores e vencedores. Talvez tenham sido eles que, mais uma vez, se manifestaram em mim. 

E continuei a lutar. Lutei até àquele que era (literalmente) o último dia possível para vencer a luta. E pensei, à medida que os últimos momentos se aproximavam, que estava arrumada. Que tudo ia terminar num silêncio estranho, daqueles que se instalam no nosso coração quando nos parece que o mundo devia parar mas, sem respeito, continua apesar da nossa dor. 

E foi aí que o milagre se deu. O mauzão arrependeu-se. Naquele último momento. Naquele último instante. E pediu desculpa (!). E a luta que eu vinha travando terminou. Terminou, com risos histéricos e foguetes imaginários. E eu voltei a agarrar o meu futuro profissional, o meu sonho, com as duas mãos. Até agora não sei o que o fez sair da minha frente com a sua artilharia pesada e deixar-me seguir o caminho que mereci trilhar. Mas no momento em que o peso do mundo me saiu dos ombros, pensei nos meus pais. Neles, que me apoiaram sempre. Que me inspiraram a continuar, mesmo quando me diziam que eu não precisava continuar a lutar. Mas precisava: por eles. Para me sentir merecedora da minha história e de quem sou filha. 

Por escrito, esse pedaço da minha história foi-lhes dedicado. 
E agora, que já semeei uma árvore e acabo de publicar um livro*, parece faltar-me ter um filho.



*Tese de Doutoramento; compilação de oito artigos científicos internacionais, sete dos quais em primeira autoria.