[Nota prévia: A liberdade de expressão não libera ofensas gratuitas -- que são, aliás, puníveis por lei: não se pode insultar um cidadão sem que daí nasça uma consequência judicial.]
O humor do Charlie Hebdo é, para dizer o mínimo, controverso. Como insultam entidades que vivem apenas na mente de crentes, os seus cartoonistas não podem ser punidos judicialmente. Mas continuam, mesmo assim, a insultar todos aqueles em cuja convicção tais entidades existem. A luta pela liberdade de expressão baseou-se na necessidade de contribuir para se chegar a uma solução mais equilibrada, mais justa, para todos. Queríamos ter voz para ser ouvidos na mudança do estado das coisas, queríamos que os direitos de todos nós pudessem sobrepôr-se a interesses individuais. Queríamos dizer alguma coisa que fizesse pensar, que incitasse outros a considerar determinada perspectiva, que mexesse com a sociedade, levando-a, em última análise, a evoluir num sentido mais positivo, mais equalitário. E este tipo de cartoon do Charlie Hebdo não representa nada disso:


Estes cartoons ofendem da mesma forma os religiosos que são exemplos positivos para a sociedade e aqueles que usam o seu Deus como desculpa para matar milhares. Usar o símbolo que os une, para ofender apenas os segundos, é injusto e despropositado. E quando se ofende uma pessoa que resolve conflitos matando, espera-se exactamente que essa pessoa faça o quê? Porventura que essa(s) pessoa(s) resolvam os seus desequilíbrios mentais magicamente e aclamem as engraçadíssimas capas?
Estas mortes são obviamente lamentáveis e tristes. Mas não são resultado da luta pela liberdade de expressão, e sim da inconsequência de alguns face à loucura explícita de outros. Os jornalistas decapitados na Síria enfrentaram a possibilidade de tal acontecer, quando para lá viajaram, para que valores mais altos se pudessem levantar: a liberdade e a paz de um povo, possível apenas se o resto do mundo se consciencializasse do que estava a acontecer e se unisse para ajudar. Em contraste, os cartoonistas do Charlie Hebdo encararam a possibilidade de morrer pelo direito a poder publicar capas vulgares e incompreensivelmente desrespeitosas. Se a coragem dos jornalistas que viajam para território de guerra me merece todo o respeito e admiração, a dos cartoonistas parece-me apenas mal direccionada e inconsequente. Perdas absurdas.