quinta-feira, 31 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Do que a amizade resolve
Apesar de enojada com tais atitudes, é-me inevitável pensar que dor intensa será essa que chega ao ponto de fazer aqueles rapazes preferirem ser reconhecidos por uma atrocidade do que continuarem a ser ignorados. E pensar nisso magoa-me.
Sei bem o que são alunos-problema. Não do género quietinho até se lembrar de matar mas do género todos os dias tenho de partir alguma coisa e ameaçar alguém de o partir ao meio também senão nem fico bem. E eu não lidava bem com a personagem. Até que um dia trouxe o problema para casa e aprendi que às vezes as pessoas mais problemáticas são as que precisam de mais ternura. Mas isso de dar ternura a um corrécio não é fácil. Ou é?
No dia seguinte, de coração aberto e lavagem cerebral feita pelos meus pais, deixei a turma inteira a olhar para mim como se fosse um extra-terrestre (E.T) quando, vendo o aluno-problema saindo da aula a empurrar cadeiras, lhe interrompi a marcha para perguntar se não queria almoçar connosco.
Não foram só os meus amigos que me olharam como se eu fosse um E.T.: ele também. E caindo-lhe ao chão toda a brutalidade, gaguejou que sim, se os outros não se importassem. Os outros importavam-se mas, sabendo que eu o detestava até ao dia anterior, apoiaram o convite provavelmente curiosos com o que sairia dali.
O aluno-problema transformou-se no Abílio, em pouco tempo. Sem surpresa tinha uma história de vida confusa, difícil, de violência doméstica constante. Nessa partilha que lhe fazia falhar a voz encontrou olhos marejados em lágrimas e abraços, e um grupo de pessoas que se tornou a família dele na escola. Deixou de ser chamado ao Conselho Directivo por desacatos, as notas subiram, era afável e amoroso num jeito tímido típico de quem não estava habituado a ser assim. Era uma pessoa diferente. Uma pessoa maravilhosamente diferente.
A turma acabou por receber uma homenagem da directora de turma, em nome do Conselho Directivo. O Abílio ganhou a possibilidade de se sentir integrado na escola e ganhou, principalmente, um horizonte mais alargado sobre quem podia ser: não por causa mas apesar do clima familiar. E nós conquistamos não apenas um colega mais ponderado, mas um verdadeiro amigo.
Tudo porque um dia lhe perguntamos se queria almoçar connosco.
Às vezes resolver um problema é mais fácil do que parece. Ser um problema também é mais fácil do que parece. E quanto mais nos distanciamos do equilíbrio entre tentar ser melhor e contribuir para resolver o que vemos de errado à nossa volta, mais probabilidade temos de comprometer o nosso futuro.
Ideias geniais
Um surto de ideias semelhantes (ou inspiradas umas nas outras, porque noticiar estes problemas também serve para isso) anda a arrasar a actualidade portuguesa: miúdos, que lançam bombas de fumo nas salas de aula e esfaqueiam alunos e professores. Invariavelmente, os alunos justificam que estavam fartos de se sentir sozinhos.
A ideia de que ferindo ou matando uns quantos vai trazer-lhes mais amigos é genial de facto. Tenho a certeza que a polícia e a sociedade em geral vão compreender estas pobres almas solitárias e deixa-los ir às aulas como antes, onde o resto dos adolescentes já estarão ansiosos por recebê-los de braços abertos no seu grupo de amigos! Bom plano!
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Da deturpação de ideias alheias
Uma jovem mamã resolveu colocar a sua foto no facebook com os três filhotes, e gerou uma polémica enorme por estar em excelente forma física. O que essa grande parvalhona insensível foi fazer. Pois que aparentemente comentários-pérola como: “Essas coisinhas preciosas precisam de você mais do que você precisa de músculos”, ou "Você faz parte do problema de vergonha corporal da América do Norte e outras partes do mundo” ou ainda “Você gosta de humilhar os outros e só sabe olhar para o próprio umbigo” fizeram parte do reportório de resposta a esta foto.
E eu acho extraordinário perceber que ela tem de se defender (tem?) de comentários deste calibre. Acho realmente espantoso que alguém que partilhou uma foto inspiradora possa ser alvo de tanta má língua. É um facto que, por preguiça ou descrença, muitas mães se protegem atrás do argumento "depois de uma gravidez o nosso corpo nunca mais é o mesmo" para não agirem sobre um problema que as incomoda. Ver, a partir da foto desta mãe, que o objectivo de recuperar a boa forma física é perfeitamente possível, deveria fazê-las felizes e inspirá-las a atingir o mesmo!
Mas não. O facto desta senhora estar em forma é motivo para o problema de vergonha corporal na América do Norte e noutras partes do mundo. Não tem nada a ver com o facto das pessoas comerem mal, não se exercitarem, encontrarem-se em sobrepeso e se sentirem feias por isso, não. Tem a ver com a beleza alheia, porque se estivessem todos em má forma ninguém se sentia humilhado. Está certo.
Duvido que quem se sente bem no seu corpo, acima do peso ou não, escrevesse um comentário amargo como os que citei. Acredito que esses comentários chegaram de pessoas desportivamente preguiçosas e pessimistas. Aquele género de pessoas forte em arranjar desculpas e fraco em acção. Aqueles que querem fazer crer o mundo que cuidar de si e da sua saúde (com consequências na beleza física) está errado e é coisa de pessoas fúteis. Claro que essas pessoas não percebem que alguém de bem consigo mesmo queira inspirar outros. Porque não sabem o que é ser inspirador, nem têm confiança suficiente em si para almejarem a inspirar alguém um dia.
Dizem que a inveja é a admiração sem esperança [de vir a atingir o mesmo]. E eu acredito.
Afinal, pessoas felizes não destilam veneno.
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