Apesar de enojada com tais atitudes, é-me inevitável pensar que dor intensa será essa que chega ao ponto de fazer aqueles rapazes preferirem ser reconhecidos por uma atrocidade do que continuarem a ser ignorados. E pensar nisso magoa-me.
Sei bem o que são alunos-problema. Não do género quietinho até se lembrar de matar mas do género todos os dias tenho de partir alguma coisa e ameaçar alguém de o partir ao meio também senão nem fico bem. E eu não lidava bem com a personagem. Até que um dia trouxe o problema para casa e aprendi que às vezes as pessoas mais problemáticas são as que precisam de mais ternura. Mas isso de dar ternura a um corrécio não é fácil. Ou é?
No dia seguinte, de coração aberto e lavagem cerebral feita pelos meus pais, deixei a turma inteira a olhar para mim como se fosse um extra-terrestre (E.T) quando, vendo o aluno-problema saindo da aula a empurrar cadeiras, lhe interrompi a marcha para perguntar se não queria almoçar connosco.
Não foram só os meus amigos que me olharam como se eu fosse um E.T.: ele também. E caindo-lhe ao chão toda a brutalidade, gaguejou que sim, se os outros não se importassem. Os outros importavam-se mas, sabendo que eu o detestava até ao dia anterior, apoiaram o convite provavelmente curiosos com o que sairia dali.
O aluno-problema transformou-se no Abílio, em pouco tempo. Sem surpresa tinha uma história de vida confusa, difícil, de violência doméstica constante. Nessa partilha que lhe fazia falhar a voz encontrou olhos marejados em lágrimas e abraços, e um grupo de pessoas que se tornou a família dele na escola. Deixou de ser chamado ao Conselho Directivo por desacatos, as notas subiram, era afável e amoroso num jeito tímido típico de quem não estava habituado a ser assim. Era uma pessoa diferente. Uma pessoa maravilhosamente diferente.
A turma acabou por receber uma homenagem da directora de turma, em nome do Conselho Directivo. O Abílio ganhou a possibilidade de se sentir integrado na escola e ganhou, principalmente, um horizonte mais alargado sobre quem podia ser: não por causa mas apesar do clima familiar. E nós conquistamos não apenas um colega mais ponderado, mas um verdadeiro amigo.
Tudo porque um dia lhe perguntamos se queria almoçar connosco.
Às vezes resolver um problema é mais fácil do que parece. Ser um problema também é mais fácil do que parece. E quanto mais nos distanciamos do equilíbrio entre tentar ser melhor e contribuir para resolver o que vemos de errado à nossa volta, mais probabilidade temos de comprometer o nosso futuro.



