Eu fujo da água gelada do Atlântico ao norte de Portugal, como da chuva no Inverno. Aliás, eu fujo da praia em geral. Mas ele, residente na Suíça e de visita a casa [do outro lado do Atlântico] apenas nas férias de Natal, não podia perder a oportunidade.
Levou-me pela mão até ao pé do mar para sentirmos a temperatura da água. Os blocos de gelo flutuantes não eram visíveis mas eu sabia que estavam algures. Pensei, inocentemente, que percebendo a delícia de água que ali se encontrava, manteria uma distância de segurança. Mas não... disse-me que ia nadar. Percebendo a minha expressão de horror, pediu-me um beijo de incentivo antes de corajosamente entrar no mar. E eu assenti, porque poderia ser o nosso último beijo, não é? E com aquela doçura que lhe é característica aproveitou a proximidade para me levar em braços para a água. Eu estava, a bem da verdade, em estado de choque -- que é como quem diz: em silêncio mas com vontade de gritar. A viver a eminência de um trauma duradouro só me saiam palavras tão astutas quanto o número de telefone da emergência em Portugal -- It's not 911! E ele, visivelmente compadecido da minha dor, gargalhava.
A doce persistência resultou numa tarde de diversão no mar como há muitos anos não vivia. É certo que deixei de sentir as extremidades a determinada altura, mas nada que o amor e o sol da maravilhosa praia de Matosinhos não tenham conseguido aquecer novamente ❤