quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Medos irracionais




Ninguém merece acordar para um duche revitalizador e terminar a fazer equilibrismo nas laterais da banheira, porque uma aranha gigantesca achou por bem dar o ar da sua graça. Tentei afogá-la, sem dó nem piedade, e fazer com que se perdesse pelo ralo abaixo, mas era demasiado gorda para passar pelos furos (!), mesmo quando se transformou numa bolinha.

Felizmente percebi que tinha companhia apenas no final do duche, senão teria ido com bolinhas de sabão no cabelo para a reunião. 

Ela faleceu. Mas parece-me que vou ter de chamar os bombeiros para tirar o ser dos infernos da minha banheira de onde fugi. onde o deixei para não me atrasar.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Das saudades


Crónicas das férias #3


Eu fujo da água gelada do Atlântico ao norte de Portugal, como da chuva no Inverno. Aliás, eu fujo da praia em geral. Mas ele, residente na Suíça e de visita a casa [do outro lado do Atlântico] apenas nas férias de Natal, não podia perder a oportunidade.

Levou-me pela mão até ao pé do mar para sentirmos a temperatura da água. Os blocos de gelo flutuantes não eram visíveis mas eu sabia que estavam algures. Pensei, inocentemente, que percebendo a delícia de água que ali se encontrava, manteria uma distância de segurança. Mas não... disse-me que ia nadar. Percebendo a minha expressão de horror, pediu-me um beijo de incentivo antes de corajosamente entrar no mar. E eu assenti, porque poderia ser o nosso último beijo, não é? E com aquela doçura que lhe é característica aproveitou a proximidade para me levar em braços para a água. Eu estava, a bem da verdade, em estado de choque -- que é como quem diz: em silêncio mas com vontade de gritar. A viver a eminência de um trauma duradouro só me saiam palavras tão astutas quanto o número de telefone da emergência em Portugal -- It's not 911! E ele, visivelmente compadecido da minha dor, gargalhava.

A doce persistência resultou numa tarde de diversão no mar como há muitos anos não vivia. É certo que deixei de sentir as extremidades a determinada altura, mas nada que o amor e o sol da maravilhosa praia de Matosinhos não tenham conseguido aquecer novamente