Incomoda-me profundamente que a ciência seja associada à disseminação de crenças que em vez de darem poder (através do conhecimento): limitam as pessoas. E incomoda-me porque, até hoje, sempre que me deparei com tais situações, a ciência envolvida não era digna desse nome: o termo estava apenas a ser usado para conferir credibilidade ao método e às conclusões, mas não se ajustava aqueles que são os mandamentos da ciência.
O mais recente exemplo, que tomou grandes proporções e não merece credibilidade, é o estudo que tenta relacionar quociente de inteligência (QI) e padrões de sono. Quem dorme mais tarde é mais inteligente, ou quem tem QI baixo acorda cedo e funciona melhor durante o dia foram frases que li na imprensa que me chocaram pela facilidade com que podem arruinar a auto-confiança de uma criança, adolescente, ou mesmo de um adulto desinformado que acredite na veracidade de tais afirmações.
É natural que não seja do conhecimento público que há revistas científicas de várias qualidades, e que aquele "estudo" tenha sido publicado numa revista fraca, mas o jornalista que publica estas notícias, com estas manchetes, deveria pelo menos certificar-se da credibilidade da informação. Neste caso, o artigo é tão estúpido que fala por si só -- no entanto, em caso de dúvida porque não pedir uma opinião de cinco minutos a dois ou três cientistas portugueses, para tornar a matéria mais rica e mais fidedigna?
Na leitura do artigo vi tantas falhas graves que nem percebi como o estudo foi aceite para publicação:
1) Os testes de QI aplicados versaram, entre outros, conhecimentos de ciência, cultura geral, compreensão escrita, matemática e eléctrica. No entanto as questões não podem ser usadas fora dos Estados Unidos da América porque, e passo a citar, o método não é conhecido fora daquele país. Falha 1: qualquer estudo científico (digno desse nome) tem como base a reprodutibilidade do método e dos resultados em qualquer ponto do mundo. Só assim se chegam a conclusões credíveis.
2) Como se não bastasse o teste de QI ser suspeito, a idade dos indivíduos em estudo encontra-se entre os 17 e 34 anos. Falha 2: Como se pode comparar a capacidade cognitiva de um grupo de indivíduos, tendo por base perguntas sobre ciência ou cultura geral, se os indivíduos adultos contam com até 17 anos extra de assimilação de informação comparativamente com os adolescentes?
3) Para acessar se se tratavam de aves diurnas ou nocturnas, a pergunta efectuada ao grupo foi a seguinte: "Assumindo condições ambientais adequadas, quão facilmente se levanta de manhã? (1, com muita dificuldade; 2, com dificuldade; 3, facilmente; 4, muito facilmente)." Falha 3: Qual é a diferença entre muita dificuldade e pouca? Não sabemos, porque a pergunta está mal formulada, logo a resposta é subjectiva. E quão cedo é de manhã? Se eu acordar às 11:30h e disser que acordo muito facilmente -- isso leva-me a integrar o grupo dos que funcionam melhor de manhã?
4) Como não me apetecia continuar na pobre secção de métodos, porque este estudo é uma estupidez pegada, passei directamente à discussão de resultados e conclusões, para ler que "Os resultados carecem, obviamente [?!], de replicação". Falha 4: Bem, é um facto que é óbvio que o estudo foi mal desenhado, mas não esperava que os autores tivessem consciência disso. Mas não só têm, como assumem que não o replicaram [com indivíduos diferentes], o que nos leva de volta à falha 1.
Acho que não preciso dizer mais nada sobre a credibilidade que as conclusões tiradas merecem.
Descansem os adeptos do deitar cedo e cedo erguer: não há nada de errado ou menos meritório convosco [apenas com as pessoas que acharam que este estudo merecia ser publicado].