A sensível Canca perguntou como é que alguém pode dizer que gosta, se oferece silêncio e afastamento. E como é que a pessoa que percebe o afastamento continua a querer bem àquela pessoa e a querer a sua presença.
Quem gosta de verdade e quer manter uma relação saudável, não se afasta. É como ter sede e recusar beber. Ninguém consegue raciocinar desidratado. O mesmo se passa com o Amor: exige a presença do ser amado. Mas amar é uma coisa, gostar é outra. Gostar é querer-bem, desde que isso não implique ajustes ao esquema de vida habitual. Amar é dar tudo e um bocadinho mais se puder ser. Ou até se não puder ser, como diria Pessoa.
Penso que o gostar é mútuo entre as pessoas enunciadas na questão. Nem ele faz um esforço para que se vejam e falem mais, nem ela (verdadeiramente) se importa. Admitir que "nem sempre precisamos de amor, às vezes só precisamos de alguém que esteja lá...", é o primeiro indício de que não é aquele ele em particular que lhe faz falta, e sim o sentimento de companheirismo, de parceria, de amizade que um dia pensou que teria fonte naquela pessoa. Mas não tem -- ou a fonte secou. E como tal faz-se essencial seguir em frente.
Porque ninguém merece viver apenas de memórias...



