quinta-feira, 2 de maio de 2013

Solidão: essa criadora de ilusões





A sensível Canca perguntou como é que alguém pode dizer que gosta, se oferece silêncio e afastamento. E como é que a pessoa que percebe o afastamento continua a querer bem àquela pessoa e a querer a sua presença. 

Quem gosta de verdade e quer manter uma relação saudável, não se afasta. É como ter sede e recusar beber. Ninguém consegue raciocinar desidratado. O mesmo se passa com o Amor: exige a presença do ser amado. Mas amar é uma coisa, gostar é outra. Gostar é querer-bem, desde que isso não implique ajustes ao esquema de vida habitual. Amar é dar tudo e um bocadinho mais se puder ser. Ou até se não puder ser, como diria Pessoa.

Penso que o gostar é mútuo entre as pessoas enunciadas na questão. Nem ele faz um esforço para que se vejam e falem mais, nem ela (verdadeiramente) se importa. Admitir que "nem sempre precisamos de amor, às vezes só precisamos de alguém que esteja lá...", é o primeiro indício de que não é aquele ele em particular que lhe faz falta, e sim o sentimento de companheirismo, de parceria, de amizade que um dia pensou que teria fonte naquela pessoa. Mas não tem -- ou a fonte secou. E como tal faz-se essencial seguir em frente. 

Porque ninguém merece viver apenas de memórias...

Crónicas da viagem #3


Vejo uma taça de morangos perfeitos ao lado de uma taça de morangos tocados com kiwi, em cima da mesa da cozinha. Como não gosto de kiwis é-me fácil identificar a taça que me foi dedicada. Corto pequenos pedaços de banana perfeita para a sua taça, e coloco os pedaços mais maduros, que não gosta, na minha. Passo parte dos morangos perfeitos para a sua taça, e analiso com redobrado cuidado os tocados. Ele regressa à cozinha, retira da minha taça os pedaços de banana que acabei de cortar enquanto pergunta o que estou a fazer aos seus morangos.

- A deitá-los fora.
- Estão perfeitamente bem.
- A banana que estava na minha taça também.

Olhámos um para o outro, depois para as taças entre mãos e sorrimos divertidos. Cada um cuidava não da sua própria taça mas da do outro.

- Sabes porquê?
- 'Cause you're cute. - foi a minha resposta altamente científica.
- Porque cada um de nós se preocupa mais com o outro do que consigo mesmo.

E é assim desde que me lembro.
You're absolutely right, adorable 


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dos artigos científicos




Sinto-me um membro do clero a celebrar um casamento, quando escrevo frases como mesenchymal stem cell commitment to osteogenic lineage.

Eh-ehm. Senhoras e senhores, reunimo-vos hoje aqui para assistir ao sagrado compromisso da Célulazinha com o Sr. Osteogenic (...). Vão, vão e perpetuem essa linhagem. Amén.

Crónicas da viagem #2





A feira de emprego para recém-doutorados correu imensamente bem. Apresentaram-me toda uma panóplia de oportunidades que nunca considerei antes. Apresentaram-me até oportunidades que só pensei possíveis na Academia, e foram essas que me fizeram balançar na anterior certeza de que dificilmente quereria sair do contexto universitário. Team leader, repetiam, depois de passar os olhos pelo meu CV. Uma empresa após outra repetia as duas palavrinhas mágicas. 

Coordenar uma equipa de investigadores, recolher os dados que produzem, organizá-los numa apresentação digital e apresentá-los aos clientes em reuniões frequentes? Coordenar uma equipa de investigação? Gosto tanto dessa ideia. 

Depois do período de Doutoramento em que senti que trabalhei sozinha de princípio ao fim, preciso de uma equipa para sentir com redobrada intensidade a paixão por investigação.