quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Coisas que me roubam sorrisos



E me podiam acompanhar nesta noite de trabalho




Sou daquelas pessoas que  não vêem o mundo através de uma lente fotográfica. Vivo cada momento, cada instante sem sequer me lembrar que poderia ter um registo visual daqueles momentos, para além do que guardo na memória. Mas depois de um dia maravilhoso penso invariavelmente o quanto adorava tê-lo. 

Este Verão comprei uma câmara de propósito. Ao jeito daquelas pessoas que pagam inscrição no ginásio para se obrigarem a frequentar o espaço. E a exemplo delas: não resultou. O objecto fica perdido na minha mala e passeia-se por todo o lado comigo sem ver a luz do dia.

A época natalícia, pródiga em cores e formas maravilhosas será o incentivo que faltava para eu dar uso ao objecto adquirido. 

Espero que a inexperiência não arruine as fotos.

Do acordo ortográfico



Ainda não aderi ao novo acordo ortográfico. Ainda. Mas continuo a ouvir os comentários e a ler as mensagens espalhadas por todo lado "eu não vou aderir, isto é um atentado à Língua Portuguesa" e surpreendo-me. A razão pela qual ainda não aderi é outra: a preguiça de sair da minha zona de conforto.

A Língua Portuguesa não vai sair a perder só porque vamos aniquilar uns p, c e afins de algumas palavras. É apenas uma mudança que visa melhorar o nível do desempenho por escrito das gerações vindouras. É assim tão terrível? Nunca ouvi ninguém queixar-se das mudanças (entretanto ocorridas) enquanto interpretava Camões ou Gil Vicente nas aulas de Português. E nem é preciso recuar tanto para encontrar ph que já não usámos ou acentos circunflexos em verbos no infinitivo em cartas e poemas antigos, e também não vejo ninguém a insurgir-se contra tal perda. 

A língua mudou. Esta não vai ser a primeira vez. Nem a última. Estancar não tem nada de  positivo, além de dar menos trabalho a quem aprendeu de outra forma e agora se vê obrigado a evoluir. 

A Idade da Pedra não terminou porque se nos esgotaram as pedras. 
Vamos continuar a evoluir sem dramas.




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Memórias


Sempre vi o Amor de uma forma muito minha. Apesar de romântica não me cativam coisas que geralmente são vistas como muito bonitas: como um belo bouquet de flores ou um presente em geral. O objecto tem de ter muito sentimento e um significado único, o que geralmente não se consegue comprando numa loja. Os gestos, esses, pesam uma tonelada. 

Lembro-me que um dia um amigo, que tinha um sentimento especial por mim e queria torná-lo mútuo, ligou-me porque queria oferecer-me um CD cujas músicas foram seleccionadas por si. Queria dar-mo naquele dia, um Sábado, e para isso ofereceu-se para passar em minha casa. Naquele tempo, nos nossos 17-18 anos, ainda não tínhamos carro e ele teria de fazer uma distância enorme de bicicleta. Sábado, era dia de me transformar em fada-do-lar e portanto as visitas não eram recomendadas. E foi o que lhe respondi. 

- Mas não demora nada.
- Não!

Contra a minha vontade ele resolveu aparecer mesmo assim e chegado a minha casa anunciou-se:

- Sou eu, vem ao portão por favor. Só quero entregar-te o CD.
- Não.
- Não acredito que não vens mesmo........
- Eu avisei-te que não iria.
- Sabes quanto tempo pedalei para chegar cá? Não sejas má.
- Não fui, eu disse exactamente o que faria.
- Mas... Tu és impossível. 

Ele atirou o CD para lá do portão, e o objecto por lá ficou, na relva, até eu o ir buscar horas depois. Podia ter ido ao portão? Podia, mas disse que não e não queria que no futuro interpretasse os meus "não" como "talvez".

O CD personalizado era muito giro, mas o que me tocou bem fundo não foi isso. Foi o tempo que perdeu para chegar cá, mesmo sabendo que corria o risco de não me ver, e o sorriso com que me recebeu quando nos vimos depois disso. Sem birras, só alegria. Era uma pessoa tão leve... Essa amizade fazia-me bem.

Revi esse amigo, que proporcionou algumas das situações mais originais e caricatas da minha vida, há uns dias atrás. E sorrimos com cumplicidade ao lembrar todas as coisas absolutamente tolas que ele fez naquele tempo e ao perceber que continuavamos os mesmos, ainda que mais maduros. 

O tempo deveria potenciar o melhor das pessoas, sempre, em vez de as tornar demasiado cuidadosas, quase medrosas. Não devíamos ceder a crescer completamente. Uma boa dose de inocência faz tão bem à alma...